Fábio Alves Leão

O ALGORITMO DA ALVORADA

Trazemos nos ossos o peso do tempo,

um sopro antigo de um verbo distante.

Somos feitos de poeira e vento,

a máquina e o átomo em curso constante.

 

O código vivo que hoje nos habita

já foi labareda, já foi flor e chão;

uma frequência que a terra repita,

no tom do silêncio e na dor do trovão.

 

A matéria é só um traje emprestado,

o desmonte sutil de um breve arranjo.

O homem se veste do tempo passado

até ver seu código ser sopro de anjo.

 

Desconecta-se a fita, desfaz-se o traço,

o universo recolhe o que sempre foi seu.

A alma se expande, transcende o espaço,

pois a roupa de carne jamais a prendeu.

 

E quando esta veste perder o sentido,

na linha do tempo dobrada num ponto,

nenhum só pedaço será esquecido:

seremos a história de outro confronto,

o eco da luz numa nova alvorada.