Eu esqueci o meu próprio nome 3 vezes hoje.
Todos os dias a cuidadora me prepara um café; o mesmo café.
E todos os dias depois desse café-amargo-eu volto nesta mesma mesa às 07:00, outras vezes mais cedo, talvez, e leio esta mesma folha de jornal.
\"Sala dos professores\"
\"Entre sem bater\".
Essa charge eu já conheço! É o meu interesse particular, sabe? Fui educador público por uns bons anos, Largo São Francisco, década de 60. É uma pena.
Imprensa, cadê o meu valor? Quanta violência! Quanta ignorância, poxa..Leigos!
Sempre sinto aquela vontade expressiva de pendurar as palavras que conheço, anoto tudo na tinta.
Quanto ao apego sensacionalista, já não me interesso como antes. Os imprudentes se colocam acima da vida escassa no cuspe sujo e molhado, caras de pau!!!
Fico sempre no folhetim municipal e nas charges. Adoro charges.
Ruim é que eu forço sempre a vista na mesma imagem, mas aí se mostram os anos que passei pelos doutores ditos oculistas. Eram sim farsantes..minha pele também não é mais a mesma.
Faço os mesmos questionamentos e listo ideias forçadas. Eu queria mudar o mundo desde quando almejava o fim de tudo que existe nele.
Também queria ter pensado mais. Meus netos já não aparecem com frequência e são 5, olhe lá! E Martha, meu amor..saudades dos seus dentes encardidos de fumo. Ela também queria a Revolución mas só ganhamos o carnê atrasado da tv tubinho de segunda mão do primo Sérgio. Eu ainda me fiz de louco e tentei negociar a câmera gravadora e o livro idiota. Dostoievski me deve, e muito!
Apesar de tudo foram bons tempos, viver de livros e saliva é uma boa desculpa pra aposentadoria precoce. Jovens traiçoeiros pegam de letra. Ainda assim, queria ter tido a impiedade da marreta enferrujada que, de longe, escutava vindo dos homens suados de sol.
Na verdade, eu não me arrependo de nada. Mas me sinto o peso morto do meu peso quando olho as rugas no espelho. Martha, carinho, você tem coragem de me olhar daí de cima? Queria te ver igual e afrouxar mais e mais a textura das suas marcas da bochecha esquerda. Lembra da nossa canção?
Martha..Martha....Quem é você no espelho? Eu moro na casa 70 e algo...Cadê Sérginho, mamãe?
-Vovô Inácio, continua a leitura do folheto, sai logo do banheiro, vai!!
A cuidadora me lembrou que acabei me perdendo na meio da charge! deuses gregos. Deus me ajude.
Como a voz da cabeça ia dizendo:
Todos os dias a cuidadora sempre me trás o mesmo café-amargo- .
Eu esqueci o meu nome 3 vezes hoje
mas ainda ainda sei multiplicar como se fosse novinho, novinho.