GGSantos

Praça José Bonifácio

Às cinco da manhã, em certos lugares, é simples: frio e breu.

Não é diferente lá.

A grande igreja de pedra que habita aquela praça há dezenas de anos continua ali, firme, limpa, intacta, como se o tempo tivesse aprendido a passar ao redor dela sem tocá-la. Suas paredes permanecem de pé, guardando histórias que ninguém mais conta, enquanto, do lado de fora, outras histórias continuam acontecendo, mas quase ninguém para para ouvir.

Porque em volta da igreja vivem os moradores de rua, cada um carregando consigo uma história que provavelmente começou muito antes de chegar ali.

Há uma mulher que vive falando sozinha, anotando coisas sem sentido em seu caderno, escrevendo como se aquelas palavras fossem importantes para alguém, talvez para ela mesma, talvez para ninguém.

Um pouco mais adiante está o homem que ganhou o apelido de “cheirador de tíner”.

Esse sim me deixa triste.

Ninguém sabe ao certo qual foi sua história, em que momento sua vida começou a se desfazer, ou quando ele deixou de ser apenas um homem com uma vida qualquer para se tornar aquele homem que anda pela praça com uma pequena lata de tíner nas mãos.

A história mais contada é que ele teria trabalhado na parte de limpeza de uma empresa que distribui água na cidade de Piracicaba, onde ainda vive, andando de um lado para o outro, como se procurasse alguma coisa que perdeu há muito tempo.

Dizem que manusear produtos fortes de limpeza sem os equipamentos adequados poderia ter contribuído para o estado em que ele se encontra hoje.

Quem sabe.

A verdade é que ninguém sabe.

E talvez seja isso que mais incomode.

Porque é fácil olhar para alguém e inventar uma explicação para sua queda. É mais difícil admitir que não sabemos quantas coisas podem acontecer na vida de uma pessoa até que ela termine sozinha, numa praça, antes mesmo de o sol nascer.

Ele anda para lá e para cá com sua latinha, cheirando, falando com as paredes, discutindo com elas como se fossem pessoas.

E, segundo ele, é ruim falar com as paredes porque elas não respondem.

Talvez seja mesmo.

Talvez seja pior ainda quando você fala com pessoas e elas também não respondem.

Ele olha para a praça e diz que ela tinha tudo para ser linda, mas que os porcos gostam de chiqueiro.

E eu olho para a igreja.

Olho para ele.

Olho para a praça.

E penso em como é estranho que uma igreja tão grande possa permanecer tão inteira enquanto, ao seu redor, pessoas vão se quebrando aos poucos.

A menos de quinhentos metros dali está a Câmara dos vereadores.

Ou, como ele prefere chamar, os porcos.

E talvez exista alguma coisa de cruel nessa distância tão pequena.

De um lado, homens e mulheres discutem leis, números, cargos, poder e dinheiro.

Do outro, um homem conversa com paredes porque já não encontrou ninguém disposto a conversar com ele.

E entre os dois existe apenas uma cidade.

Uma cidade que acorda cedo, que passa apressada, que olha e não vê.

Pessoas passam fome.

Pessoas se entopem de drogas para esquecer a própria vida.

Pessoas dormem no frio enquanto prédios continuam acesos durante a madrugada.

E talvez o mais triste não seja a miséria.

Talvez seja a maneira como nos acostumamos com ela.

Porque depois de algum tempo a mulher que fala sozinha deixa de ser uma pessoa e vira apenas “aquela mulher”.

O homem do tíner deixa de ter um nome e vira apenas “o cheirador de tíner”.

E os que deveriam cuidar de tudo deixam de ser pessoas também.

Viraram números.

Viraram cargos.

Viraram discursos.

Viraram promessas.

E a praça continua ali.

A igreja continua ali.

As paredes continuam ali.

E às cinco da manhã, quando ainda existe frio e breu, há homens conversando com paredes porque talvez tenham descoberto, antes de todos nós, que às vezes é mais fácil falar com pedras do que com pessoas.