De óculos escuros, motorista pegador parou o ônibus e a habitual passageira embarcou. Ele, sobrancelhas arqueadas, elevadas, rugas horizontais na testa sorrindo, sorriso de pânico. A parte branca do olho mais branca que uma garça de asas abertas em toda a sua envergadura, congelada; ela, sobrancelhas arriadas, ruga vertical entre os olhos. Passageiros curiosos. Ele, rápido, socorre-se da plaquinha e aponta: fale ao motorista somente o indispensável. A passageira condensa, arranca a calcinha vermelha e preta e atira no capô. Passageiros sobressaltados, ele pensa em feminicídio cuja pena pode chegar a 40 anos, mas tinha ouvido no jornal da manhã que o Supremo entendeu que se a mulher for flamenguista, trata-se de flamenguicídio e a pena pode chegar a 400 anos. O motorista muda de empresa. E a calcinha foi atrás.