Ontem quando era pequeno, queria continuar a ser pequeno…
Esperava ele chegar à estação, para o ficar a contemplar, lembro-me que costumava gastar resmas e resmas de papel a desenhá-lo para passar o tempo, ficava sempre animado ao vê-lo chegar, era um fascínio que não consigo explicar, pedia sempre para não voltar para casa de imediato depois de uma saída nos finais de semana, porque queria vê-lo passar à frente dos meus olhos “mãe, mãe, não quero voltar já, vamos ficar só mais um pouco, quero ver os comboios a passar.” e agora só quero ver a vida a passar à frente dos mesmos olhos, que um dia carregaram a inocência de uma criança com a curiosidade da descoberta, ao invés da tristeza diária com os traumas do passado…
Hoje sendo grande e querendo voltar a ser pequeno…
Fico apenas a contemplar os trilhos, à espera que ele chegue, para decidir se devo ou não me atirar a eles, confesso que é o que tenho tido mais vontade ultimamente, mas eles não merecem ser traumatizados, apenas quem me traumatizou, este ato será a consequência dos vossos atos, quem entra no comboio vai para as outras estações, e quem se atira à frente dele vai para aquela estação, que dizem ser bastante quente mesmo nas estações mais frias, reza a lenda que quem adormece nele acorda nos trilhos com as mãos e os pés amarrados aos mesmos, e sem as roupas que tinha no corpo previamente, completamente nu e desorientado, a observar a morte ao longe, mas bem de perto.
Aquela figura ao longe, do outro lado da linha, cujo o rosto não consigo ver nitidamente, é literalmente uma silhueta, de capa preta e foice na mão, parece mudar de posição a cada vez que pisco os olhos e desvio a atenção por alguns segundos, que estranha a sensação, deve ser apenas coisa da minha imaginação.
Depois de 6 minutos o comboio chegou, ele foi passando até ir parando, enquanto passava, eu olhava para o meu reflexo na janela, e notei que aquela mesma figura de há bocado estava do meu lado, fiquei apavorado, porque não tinha mais ninguém do meu lado senão aquele passageiro bem arranjado, e alguns passageiros a caminhar e a conversar à distância, também reparei que ela só aparecia ali naquele reflexo, mas era algo que não tinha nexo, continuei perplexo e sem entender nada, mas apenas decidi ignorar e dar entrada no comboio para me sentar, e lá estava ela denovo, parada a me contemplar, em um abrir e fechar de olhos, ela estava sentada à minha frente, a conversa foi casual, falámos sobre auto-mutilação, a sua presença era sinistra, ela colocou a mão no meu ombro e falou “miúdo, não devias estar a viajar sozinho.” e me perguntou quantas paragens me faltavam para chegar a casa, e eu sem entender respondi “eu diria, umas 6 paragens.”
A partir daí tudo ficou estranho, a frequência do comboio começou a mudar, as luzes a piscar sem parar, o ambiente a se distorcer, aquela figura medonha começou a gargalhar sem medo de se engasgar, e eu sem saber o que fazer, tentei me levantar, mas o corpo estava paralisado pelo medo, tentava falar, para tentar entender o que ela estava a tramar, mas a voz não saía, então fechei os olhos para me concentrar em lembrar de alguma memória nostálgica, e tentar acordar deste que seria o suposto pesadelo, a memória era no comboio, eu voltando para casa acompanhado, no final de tarde em um domingo, aguardando ansiosamente pelo dia de amanhã, e contemplando a paisagem no pôr do sol, enquanto os raios de sol refletiam na janela para o meu rostinho inocente e delicado, vendo os carros na estrada, e na minha cabecinha ainda não desenvolvida, pensando e por vezes dizendo “olha ali, eles estão a fazer uma corrida, o carro azul vai ganhar do vermelho.” e foi nesse momento, tudo ficou preto, algo interrompeu essa minha memória infantil que tinha tanto carinho, até que algo sussurrou no meu ouvido “a tua hora chegou.”
30 segundos.
E…
onde estou?
cheguei no terminal?
sons do comboio no fundo…
esta brisa…
estou nu, e ao ar livre…
mas onde?
o que aconteceu?
a visão está meio embaçada…
as minhas mãos…
os meus pés…
estão amarrados aos trilhos, no meio do nada…
mas…
o que aconteceu para isto ter acontecido?!
afinal…
a lenda do comboio 666…
é real…
eu lembro-me de ter entrado no comboio, mas não me lembro de ter adormecido…
ali no fundo…
é…
é aquela figura novamente…
e o comboio…
entendi…
é o fim para mim.
6 segundos.
o comboio se aproxima…
a figura ri-se…
as lágrimas caem…
os minutos tornam-se minúsculos…
eu grito…
Grito…
e GRITO.
e ninguém vem.
se me tivessem ouvido…
não teriam vindo.
rezei para o criador…
mas nada aconteceu.
pedi ao anjo caído…
e ele respondeu.
cria-dor…
faz sentido…
sou cria da minha própria dor…
e ele é o criador dela.
a partir deste momento…
me declaro ateu.
é um adeus ao mundo, à religião, e a Deus…
o pai de todos…
menos o meu.
eu te odei– —
– —
– —
onde estou agora?
acordei em outro lugar…
quente, mas não aconchegante…
ah…
é a tal estação quente mesmo nas estações frias, que ouvi falar…
não lembro de me ter atirado aos trilhos, mas de ter sido raptado, e em um piscar de olhos, estar amarrado, enquanto gritava e me debatia, e aos olhos passando pequenos momentos da vida que venci, me esqueci e que nunca vivi…
entendi…
o andar de cima do andar de cima, não me quis…
naquela hora…
estava à espera de ser atingido…
e no momento…
fiquei surpreso por ter sido atingido.
estas figuras pretas que me rodeiam…
entendi…
são os demónios da bíblia.
agora posso virar um caçador de demónios.
mas não quero voltar a ficar sozinho…
estou mal acompanhado…
mas pelo menos estou acompanhado…
no andar de cima nunca tive muitos amigos…
será que eles falam?
hey…
alguém aqui…
viu as minhas roupas?
eu tinha um casaco preferido…
mas ele foi raptado junto comigo.
..
…
alguém aqui
…
..
quer ser meu amigo?
..
…
acho que seremos
…
..
bons amigos
...
..
.