JOHNNY11

Público no estúdio

Público no estúdio

É invasão de privacidade
Falta de respeito para com o meu estudo
Portanto, existência de liberdade

Liberdade que, usada em demasia, é mais que invasão de privacidade
É uso e abuso, nada próprio para consumo
Parece que tem sumo
Mas, quando espremes demasiado, não é nada mais que barulho de fundo

Também não me orgulho
De mim mesmo, assumo!
Não sou exemplo, saboto o meu futuro
Mas não tento prejudicar ninguém

Também sou público
Além de músico
Não sou o único
Há muito público no estúdio
Mas este é inoportuno

Em horário diurno
Em horário noturno
Eu mergulho num misto de repúdio e infortúnio

Público no estúdio
Não é estúdio público
É estúdio privado
E eu estou privado do meu segundo sono

E eu estou confuso
Será que eu mereço estar preso a um trabalho em que o sentimento não é mútuo?
Pois eu sinto que nutro carinho pelo público
Eu não destruo, eu amo lançar discos duplos

Mas ele não me ama, ele é recluso
Recluso do meu próprio triunfo
Assim concluo
Que me excluo

Não porque queira viver no próprio mundo
Mas porque o mundo é demasiado estúpido
Para entender que, pela poesia, movo mundos e fundos

Para mim ela é tudo
Quando lhe sai o período
Eu estou lá ao minuto e ao segundo

Sou pai e com orgulho
Mas, por dentro, ainda sou um miúdo
Um miúdo assustado
Com o público no estúdio

Um miúdo que só quer fazer o seu trabalho
Sem murmúrio
Sinto-me Mercúrio
Mais perto do Sol
Quando entro no estúdio

E coloco a sete chaves o público no cofre
Sou oriundo do estúdio
É por ele que luto
Luto por ele e mais músicos
Que queiram ver o seu trabalho no segredo dos deuses

O mundo parece maiúsculo
No que diz respeito ao seu núcleo
Mas muito, mas muito minúsculo
No que diz respeito ao seu conteúdo