Ana Gonçalves

Não sei o nome disso

As vezes meu peito volta a doer,
como ferida que insiste em não se refazer.
Eu penso que passou, que aprendi a deixar,
mas basta um novo dia para tudo recomeçar.

É como arrancar a casca de um corte recém-fechado,
só para descobrir que ainda estava machucado.
E aquilo que o tempo tentava cicatrizar
eu mesma, sem querer, torno a desarranjar.

Depois vem a manhã, e a vida segue adiante,
o peito se acalma, o mundo fica distante.
Por alguns dias, já consigo respirar,
e quase acredito que aprendi a esquecer e deixar passar.

Até que, sem aviso, a dor volta a crescer,
mais forte do que antes, difícil de compreender.
E eu fico matutando, sem saber responder,
é falta, tolice ou algo que eu não soube ou tentei resolver?

Talvez ainda exista um sentimento estranho escondido, 
um pedaço de afeto ou desafeto que não foi despedido.
Ou talvez seja o ressentimento de tudo que ficou e passou,
das coisas que eu calei, que eu sei, do que nunca explicou.

Não sei se sinto falta ou se ainda sinto raiva,
se é uma mancha que ficou ou aquilo que não acaba.
Só sei que, quando penso que finalmente sarei,
há uma dor no meu peito lembrando que eu ainda não terminei.

E assim os dias se passam, sigo tentando compreender
se esquecer é deixar de sentir ou aprender a conviver.
Porque há dores que não pedem para permanecer,
mas voltam justamente quando pensamos que vão desaparecer.