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Salas, elevadores, esquinas e abismos

Por trás da longa perna vejo a sala
Pessoas grandes, estranhas, falantes
Cumprimento elas, impelida por voz mansa e doce no imperativo

Mas por natureza, permaneço protegida pela calça jeans
Em sussurro digo o que sinto das figuras
Que falam de mim como se eu não estivesse ali

Tento conciliar
Mas o fundo do abismo brilha
Vejo o rio couve- caramelo
Um ouriço arco-íris
Os pelos que viram penas
Sinto o cheiro agridoce a ser descoberto
E quando adulta já não existe o medo
Adentro, toco

Por vezes vejo, cumprimento, converso
Às vezes vejo, não olho
Não cumprimento, nem falo
Não é que de repente desgosto

De repente me falta ânimo
Ânimo do que não sinto naquele momento
Não é que odeio
Não é desavença
Cara virada
Apenas sinceridade opressora
Oprime a mim também
Mas me liberta por diversas vezes

Então em esquinas faço laços rápidos
E em salas inimizades duradouras
É difícil ter que encontrar os mesmos sempre
Não sou a mesma sempre
Me desfaço, me enlaço, retroajo
Me dizem ser séria, fria
Mas me levam tão a sério...
Então a culpa é mesmo minha?

Gosto das esquinas
Tão não certas
Pouco vistas
Mutadas
Encontro todo tipo de gente
As melhores
As tristes
Cansadas
Vividas
Levemente doidas
Levemente livres

Nos elevadores silêncio
Peso
Um bom dia alegre que se desfaz com um boa noite exausto
Como se eu não tivesse direito a exaustão
Como se soltar o cabresto do sorriso fosse crime
Como se um momento ruim anulasse tudo
Todo o trabalho do enlace se desfaz e desço para além do poço

Por isso a esquina é bela
Vc sempre está no zero
Cada dia é um dia
Ninguém passa a esquina esperando ver o que já foi visto
Lá se é livre
Para ser quem se é no momento
Sem grilhões para te prender no futuro

O futuro que é sempre incerto
Mas vc sempre tem que ser certa
Não consigo
Com os outros
Então pulo
Na verdade voo
Sinto tudo

O abismo brilha
A esquina é bela
Ainda assim passo a maior parte do dia nas salas
E entre uma sala e outra há sempre um elevador