O bicho pisa no barro e não veste o mundo com as roupagens do medo,
nem carrega nos olhos as entrelinhas da dúvida,
apenas existe no sangue, no músculo, na estrutura e no alento.
A vida entre eles é pura presença, sem o filtro da mente.
Nós, pelo contrário, somos equilibristas bêbados,
suspensos como marionetes, num fio esticado sobre o próprio pensamento.
Construímos castelos inteiros feitos de vergalhões e conceitos,
trocamos o cheiro da chuva pelo símbolo que a inventa.
Chamamos de verdade o sonho em que habitamos,
reagindo ao abrigo que nós mesmos projetamos na parede.
Mas quando a razão cansa e perde o seu prumo,
quando o relógio interno falha e a lógica desmorona,
Perder o da razão não precisa ser loucura,
é, muitas vezes, a queda necessária do artifício.
Quando o pensamento para de traduzir a existência
e aceita calar sua própria voz interna e insolente,
cessam as interpretações, as culpas e as histórias inventadas.
O que sobra é você cru, o ar nos pulmões,
e a constatação silenciosa de que o mundo sempre esteve ali,
esperando que tivéssemos a coragem de apenas sentir.