Lavinia

COISAS QUE EU AINDA ACREDITO

Eu ainda acredito em algumas coisas

que talvez hoje pareçam meio bobas.

Acredito em gente que fica.

Em conversa que começa sem assunto
e termina horas depois.

Em rir até a barriga doer
por uma coisa que nem era tão engraçada.

Acredito em olhar que diz alguma coisa
mesmo quando a boca não diz nada.

Acredito em cuidado.

Naqueles pequenos detalhes
que quase ninguém percebe,
mas que, pra mim,
fazem toda diferença.

Eu sou muito dessas.

Das que lembram de uma música
porque ela combina com alguém.

Que guardam uma frase
mesmo depois de muito tempo.

Que conseguem transformar
um dia completamente normal
em uma memória bonita.

Eu gosto de intensidade,
mas não daquela que machuca.

Gosto da intensidade
que faz a pessoa estar presente.

Que faz querer saber como foi o dia.

Que faz lembrar de alguma coisa
e pensar:
“isso aqui tem a cara dela.”

Eu gosto de gente que tem história.

Que tem defeitos.

Que já errou.

Que já mudou de ideia.

Que não precisa parecer perfeita
o tempo inteiro.

Porque eu também não sou.

Eu sou teimosa.

Às vezes penso demais.

Às vezes sinto demais.

Às vezes crio planos
antes mesmo de saber
se eles vão acontecer.

Mas também sou daquelas
que, quando gostam,
cuidam.

Quando prometem,
tentam cumprir.

Quando amam,
não sabem fazer pela metade.

E talvez essa seja uma das poucas coisas
que eu nunca quis mudar em mim.

Eu não quero aprender
a sentir menos
só porque sentir muito
às vezes assusta.

Não quero ficar fria
só porque nem todo mundo sabe
o que fazer com alguém que sente de verdade.

Eu ainda quero gostar das coisas
com aquele brilho meio bobo nos olhos.

Quero música no carro.

Quero viagem sem saber direito
como vai ser.

Quero uma casa cheia.

Quero família por perto.

Quero trabalhar com aquilo que amo
e ter orgulho da vida que construí.

Quero olhar pra trás um dia
e reconhecer a menina
que sonhava com tudo isso.

E quero continuar tendo fé.

Porque tem coisas
que eu ainda não consigo explicar,
mas que eu acredito
que Deus está preparando.

Talvez por isso eu não tenha pressa
de entender tudo.

Nem todo encontro precisa virar história.

Nem toda história precisa durar pra sempre.

Algumas pessoas passam.

Outras ficam.

Algumas ensinam.

Outras mudam tudo
sem nem perceber.

E eu acho bonito isso.

A vida não vem com legenda.

A gente só vai vivendo,
conhecendo,
errando,
acertando,
se aproximando,
se afastando,
e descobrindo quem realmente faz sentido
quando a vida deixa de ser novidade.

Eu não quero ser lembrada
por ser a mais bonita,
a mais interessante
ou a mais perfeita.

Quero ser lembrada
por ter sido verdadeira.

Por ter feito alguém rir
num dia ruim.

Por ter ouvido
quando ninguém mais quis ouvir.

Por ter estado presente
quando seria mais fácil simplesmente ir embora.

Por ter deixado alguma coisa boa
mesmo sem perceber.

Porque, no fim,
acho que é isso que fica.

Não são as coisas caras.

Não são as fotos bonitas.

Não são os momentos perfeitos.

São as pequenas coisas.

Aquela conversa que ninguém mais lembra.

A música que ficou marcada.

O abraço que chegou na hora certa.

A pessoa que fazia tudo parecer
um pouco mais leve.

E talvez seja isso que eu quero ser.

Não a pessoa que todo mundo olha.

Mas aquela que, depois de algum tempo,
alguém lembra
e sente um pouquinho de saudade.

Não porque era perfeita.

Mas porque era verdadeira.

Porque tinha um jeito diferente.

Porque fazia falta sem precisar pedir espaço.

E talvez existam pessoas assim na vida.

Pessoas que a gente só entende
o tamanho que tinham
quando percebe que o mundo continuou,
mas alguma coisa ficou diferente.

Eu espero ser uma dessas.

Não por ego.

Não pra provar nada.

Só porque, se eu passar pela vida de alguém,
eu quero deixar uma coisa boa.

Quero que, um dia,
no meio de uma música,
de um lugar,
de uma conversa qualquer,
alguma lembrança faça alguém sorrir
e pensar:

“Era bom ter ela por perto.”

E, sinceramente?

Pra mim,
isso já seria uma forma bonita
de ter vivido.

- Lavinia Dias