L.S.Paixão

Enterrando um amigo

Estou em luto. Um luto que só eu posso sentir, mais ninguém. Só restaram lembranças. Você se foi e me doeu muito; sinto tanto a sua falta. Lembro das nossas risadas, das conversas... era tão bom. Eu lhe contava tudo, me sentia segura e a confiança parecia mútua.

E agora ele está aqui, com o rosto idêntico ao seu, com o seu jeito. Ele usa as suas roupas. Como ele ousa me machucar com a sua face? Você morreu e ele ficou. Eu o odeio. Ele me esfaqueou pelas costas enquanto me abraçava e me descartou na grande maré alta.

[Negação] Eu tentava nadar de volta. Queria saber o que houve, estava em negação e não conseguia alcançá-lo. Ele não me estendia a mão e dizia que estava tudo bem, enquanto a cada segundo eu me afastava mais da terra firme. Tentando entender uma situação sobre a qual não tenho controle, e consertar o que não se conserta sozinho, parei de lutar e aceitei me afundar no mar escuro.

[Raiva] Quando abri os olhos, estava em terra firme. Sentia ódio, raiva. Como ele pôde? Eu dei tudo de mim, pensava que era recíproco. Como ele consegue caminhar sob o sol com o seu sorriso, enquanto eu carrego o peso de um túmulo que ninguém vê? Onde está a justiça em vê-lo inteiro enquanto eu me juntei em pedaços?

[Barganha] Se eu tivesse feito uma barganha, se não tivesse insistido em resolver... Onde foi que eu errei o caminho? Que parte de mim falhou para que o nosso laço se tornasse o meu próprio castigo? O que eu fiz para merecer esse silêncio?

[Depressão] Sinto ranço e desprezo, não suporto estar no mesmo ambiente que ele. Ele é tão diferente do meu amigo, e ninguém percebe, só eu. Enquanto ele vive por aí com o seu rosto, eu me despeço de você, meu amigo. Eu o enterro em minha mente, pois não há velório, nem mesmo um corpo. É estranho passar por esse luto sem que ninguém perceba ou entenda.

[Aceitação] Preciso aceitar a realidade. Fiz o que podia; você morreu e não há o que fazer. E ele ainda continua lá, com o seu rosto. Eu o odeio e sinto que o sentimento é mútuo. E aqui se encerra, para que eu possa seguir livre. Descansa em paz, amigo. Foi um desprazer ter te conhecido.

 

 

— L.S.Paixão