Junior Silva

As Horas Que Não Vivemos

Há quem diga
que o tempo passa depressa demais.

Eu discordo.

Desde que o mundo aprendeu a girar,
o tempo segue o mesmo caminho,
obediente aos ponteiros,
sem nunca correr,
sem nunca se atrasar.

Cada segundo nasce,
cumpre sua pequena eternidade
e desaparece.

O tempo não mudou.

Nós mudamos.

Somos nós que, tantas vezes,
tentamos prendê-lo nas mãos,
domá-lo nos relógios,
dividi-lo em compromissos
e gastá-lo sem perceber.

Acordamos.
Corremos para o trabalho.
Entregamos horas ao trânsito,
minutos às esperas
e pedaços de nós
àquilo que chamamos de rotina.

E quando finalmente paramos,
o dia já fechou as cortinas.

Então olhamos para trás
e, assustados, dizemos:

“O tempo passou rápido demais.”

Mas não.

Ele apenas passou.

Como sempre passou.

Talvez tenhamos sido nós
que atravessamos seus dias
sem realmente habitá-los.

Porque o tempo é um amigo silencioso.
Oferece-nos o agora
como quem entrega uma flor
sabendo que ela não florescerá para sempre.

E nós, distraídos,
tentamos guardar o perfume
quando deveríamos ter sentido a flor.

Por isso, sorria.

Ame-se.
Ame mais.
Diga o que sente.
Abrace sem pressa.
Olhe demoradamente para quem ama.

Não espere que o tempo vá embora
para descobrir o valor
daquilo que ele deixou em suas mãos.

Porque o tempo não rouba os nossos dias.

Somos nós que, muitas vezes,
deixamos a vida passar
enquanto esperávamos ter tempo para vivê-la.