Infiltro uma ideia pela penumbra da tua nuvagem,
fina e afiada como uma haste de marfim.
Não há pressa na geometria:
primeiro habitas o tremor do advérbio,
o modo lento como a linguagem se desveste
antes de roçar a linha do teu pescoço.
Planto um conceito oblíquo que se dilata
na arquitetura morna da tua pele.
Desço pelo relevo suave da barriga,
esculpindo em pensamento cada contorno,
enquanto os lábios entreabertos retêm o ar
e o peito responde, teso e denso,
à gravidade do que ainda é apenas ideia.
Sinto o estalo de um arrepio súbito
quando a metáfora escorrega para além da cintura,
demora-se na vertente interna das coxas
e toca, sem tocar, a doçura oculta da tua flor.
A umidade ali não é pressa;
é a resposta física da imaginação que se acende,
o desdobrar lento de uma simetria secreta.
Invado a fenda sutil entre a memória e a carne.
Manipulo o pulso do teu desejo:
cada curva tua agora arde
em um ritmo que eu compasso,
até que a mente, rendida à própria anatomia,
se abra inteira para o fogo.