bosquesecreto

mesmo sentada ao meu lado

Mesmo Sentada ao Meu Lado

Minha mãe está sempre no celular,
e eu sei,
eu também já estive presa em uma tela,
já conheci esse mundo pequeno
onde as horas desaparecem
sem a gente perceber.

Mas alguma coisa mudou em mim.

Meu celular quebrou,
e faz quase dois anos
que minhas mãos não seguram mais aquele pequeno mundo.
E, estranhamente,
eu comecei a segurar o meu.

Descobri que gosto de caminhar,
de ouvir música,
de sair,
de conhecer coisas novas,
de ler,
de sentir o vento
e lembrar que existe uma vida
que não cabe dentro de uma tela.

Eu gosto de estar viva.

Talvez seja isso que mais doa.

Porque eu olho para você
e parece que você não quer sair
do lugar onde se esconde.

Eu queria você.

Não a mãe que fala comigo sobre igreja,
não apenas a voz que me diz o que devo fazer,
não alguém que está na mesma casa
mas em outro universo.

Eu queria uma mãe que fosse minha amiga às vezes.

Queria sentar ao seu lado
e assistir a um filme qualquer,
rir de alguma coisa idiota,
falar de política,
de fofoca,
de coisas novas,
de coisas que descobri,
de coisas que ainda nem sei explicar.

Queria contar minha vida para você.

Mas como contar
se sinto que você nunca pergunta?

Como abrir meu coração
quando até uma brincadeira minha
pode terminar em um
“vai apanhar”?

Então eu vou guardando.

Guardo as coisas que li,
as coisas que pensei,
as coisas que achei interessantes,
as pequenas histórias do meu dia,
as vontades de sair,
as vontades de viver.

E talvez você nem saiba
quantas coisas existem dentro de mim.

O mais triste
é que eu não quero uma mãe perfeita.

Eu só queria uma mãe presente.

Uma mãe que olhasse para mim
e enxergasse mais do que uma filha
que precisa obedecer.

Que enxergasse uma pessoa
cheia de perguntas,
curiosidades,
sonhos,
opiniões,
medos
e vontade de conhecer o mundo.

Eu queria poder dizer:

“Olha, mãe,
vem comigo.”

Vem ver o mundo que eu descobri.

Vem ouvir essa música.

Vem caminhar comigo.

Vem assistir esse filme.

Vem conversar comigo
sem que tudo precise virar sermão.

Vem ser minha mãe
sem que eu precise sentir medo
de ser eu mesma.

Porque é estranho
sentir tanta vontade de viver
e, ao mesmo tempo,
sentir que a pessoa que eu mais queria
ao meu lado
está sempre olhando para uma tela.

E talvez você nem perceba.

Talvez nunca perceba
que, enquanto você olha para o seu mundinho,
eu fico olhando para você,

esperando.

Esperando o dia
em que você vai largar o celular,

olhar para mim

e finalmente perguntar:

“Filha,
me conta.

Como está a sua vida?