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O APARTAMENTO SANGRA COMIGO

 

 

Escrevo minhas mágoas nas paredes

com o vermelho que a noite deixou em mim,

e cada palavra nasce pesada,

como ferrugem arrancada

de um coração esquecido na chuva.

 

Meu apartamento tornou-se um mausoléu,

quatro paredes onde o passado respira,

onde cada sombra conhece meu rosto

e cada silêncio sabe

o nome das coisas que perdi.

 

Escrevo os amores que apodreceram,

as promessas que morreram sem funeral,

as mãos que me soltaram

quando eu ainda acreditava

que permanecer era uma forma de amor.

 

O vermelho desce pela parede

e eu o observo em silêncio,

como quem contempla o próprio passado

escorrendo lentamente

para um chão que já não espera nada.

 

Há nomes que escrevo tão fundo

que parecem atravessar o cimento.

 

Há lembranças que não precisam de palavras;

basta uma mancha,

uma noite sem estrelas,

o cheiro de café frio

e esse corpo cansado

tentando fingir que ainda pertence ao mundo.

 

Minha parede está cheia de mim.

 

De tudo aquilo que não disse.

De tudo aquilo que não perdoei.

De tudo aquilo que amei

até transformar amor em ruína.

 

E quanto mais escrevo,

menos reconheço o homem

que segura a última palavra.

 

Talvez a dor seja isso:

 

uma literatura escrita na carne do tempo,

um poema que ninguém pediu,

uma página que jamais termina,

porque algumas feridas

aprendem a rimar com a eternidade.

 

Quando amanhece,

o vermelho permanece.

 

E eu também.

 

Não por esperança.

 

Apenas porque até os homens quebrados

continuam respirando

quando o mundo já lhes parece

uma casa abandonada.

 

Então permaneço diante da parede,

cercado pelas minhas próprias palavras,

como um poeta condenado

a ler para sempre

aquilo que escreveu

quando ainda acreditava

que a dor podia ser transformada em beleza.

 

— enitnatsnoC oãoJ