Guilherme Rodrigues

O Último Arpejo: O Maestro e o Silêncio

Há um ano, em uma noite obscura e chorosa,

pairava o nosso futuro astronauta, alma corajosa.

Fechou os olhos e levou suas mãos ao próprio rosto.

Suas emoções tentavam alcançá-lo,

mesmo distante, mesmo oposto.

 

Abriu os olhos para o céu, em busca de respostas;

as estrelas permaneciam imóveis, absortas.

E o vento, em seu sussurro manso e sem igual,

lhe devolvia antigas canções, um consolo quase maternal.

 

Um piano de bordo e abeto,

aguardava-o em um silêncio soneto.

Preto e brilhante sob as luzes do luar,

cordas afinadas que não ousavam se tocar.

Dele sairiam notas que se entrelaçariam sobre o ar.

 

Nosso regente em luto chegou — e logo se acostou

Junto de uma figura funérea, acima álgida e ao lado austera

Hoje, seria ela sua única plateia.

 

Deixara escapar o que lhe era mais caro,

a vida tomara seu ouro mais raro.

Sua proteção, alvorada e talismã,

Quem lhe dera à luz ontem e que lhe faltaria amanhã.

 

Lembrará das manhãs que, com sua voz inquiria,

Versos que floresciam com a claridade do dia.

Já não mais cantava, nem mais sorria,

Somente seu eco em memórias se ouvia.

 

Recolheu, então, uma a uma, suas peças partidas.

Sentou-se sob o véu que a noite sustinha.

A partir daqui cada nota seria um eco do seu passado.

Cada lágrima derrubada, sua oposta - um adeus, seu retrato.

 

Antes, um reflexo leve e fácil de contemplar;

agora, uma imagem quebrada, difícil de aceitar.

 

As gotas que do céu pincelavam memórias sobre o ar,

hoje, um dia cinza, pronto a se repetir e amargar.

 

Os amigos e seus sorrisos que chegavam a iluminar

Refrataram-se em rostos fechados, que desviam antes mesmo de olhar.

 

As duas rodas que o levavam o mundo a explorar

deram lugar a um foguete, para mesmo se distanciar.

 

E o lugar que um dia chamou de lar…

que agora, em lágrimas, não cessava de o afogar.

 

A definição de uma vida inteira

em um poema para se experimentar,

Reduzida a uma corrente invisível, que insiste em nos arrastar.

 

O que, afinal, o faz continuar?

 

Com seu piano, tentava em arpejos realentar,

mesmo sob o vácuo, não ousava se silenciar.

As estrelas precisavam ouvir o que estava a tocar,

um encantamento que não parava de entoar:

Dó, ré, mi, fá, sol, lá, si, lá...

de lá para aqui, daqui para lá.

 

Acordes marcavam um clima pesado,

aprisionados em compassos equivocados.

Por mais que clamasse, nada deixava de doer.

Então, em um último verso, deixou seu parecer.

 

Partindo de dó sustenido, reinterpretado como ré bemol,

da sua flor favorita ao seu sorriso girassol.

Sol sustenido, sua oitava e sua terça,

em nome de sua alegria e de toda sua beleza.

Da sinfonia que ao adagio se ouvia, ao silêncio que a cadência permeia,

Obrigado por tudo. Eu te amo. Nunca se esqueça.