A chuva cai.
Eu e o barata,
imóveis na janela,
olhamos o que não vem.
A névoa promete
sonhos presentes.
O barata não sabe do meu desejo.
Eu não sei ser calma.
O barata diz,
em conversa de outro mundo:
— deita comigo
nesse tempo.
O medo
se disfarça
de calma.
A chuva continua.
O barata me toca
e beija meus pés frios —
sou quase noiva.
A chuva escreve
na vidraça
a única palavra
que entendo:
fica.
Eu fico.
Eu não digo não.
Eu não digo nada.
Eu sei como cair
com elegância.
Não há pecado
quando
é só o corpo
que deseja
desabar
devagar.
Lá fora,
o mundo
não nos vê.
O barata diz, ah, Ayalah...
e de novo o barata
dorme no meu peito,
como um segredo pequeno.
Porque sou bicho,
porque sou breu,
porque a noite desce
e somos inocentes.
E eu,
pela primeira vez,
acho graça
de estar viva.
Minha quase primeira vez
de Ayalah Verônica Berg