enitnatsnoC oãoJ

VIDA

De -- enitnatsnoC oãoJ

 

Nasci.

 

Não houve música.

 

Só um corpo

chegando atrasado

à própria existência.

 

Disseram:

 

— Viva.

 

E eu obedeci.

 

Foi meu primeiro erro.

 

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A vida começou pequena.

 

Um quarto.

 

Uma janela.

 

Um nome.

 

Depois vieram os documentos,

as fotografias,

os aniversários,

as pessoas dizendo

que eu estava crescendo.

 

Ninguém percebeu

que crescer

era apenas uma forma educada

de dizer:

 

estou ficando menor.

 

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Aprendi a andar

para chegar a lugares

onde não queria estar.

 

Aprendi a falar

para dizer coisas

que não significavam nada.

 

Aprendi a amar

e descobri que o amor

também sabe morrer.

 

Principalmente o amor.

 

Ele morre primeiro

porque é o único

que acredita

que vai durar.

 

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Houve dias bonitos.

 

Isso é o pior.

 

O sol entrou pela janela

como se tivesse sido convidado.

 

Eu ri.

 

Alguém riu comigo.

 

Por alguns segundos

a morte pareceu

uma coisa muito distante.

 

Mas ela estava apenas

esperando no corredor.

 

A morte tem paciência.

 

Nós temos calendários.

 

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Depois envelheci.

 

Não percebi quando.

 

Talvez tenha sido

na primeira vez

que uma fotografia minha

pareceu pertencer

a outra pessoa.

 

Talvez tenha sido

quando comecei a dizer:

 

“antigamente…”

 

Essa palavra é uma pequena lápide.

 

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A vida insiste.

 

É quase engraçado.

 

Ela coloca flores

sobre aquilo que apodrece.

 

Coloca nomes

sobre aquilo que desaparece.

 

Coloca relógios

sobre o tempo.

 

Coloca esperança

sobre o medo.

 

E chama tudo isso

de civilização.

 

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Eu costumava pensar

que viver era acumular.

 

Dias.

 

Amores.

 

Erros.

 

Cigarros.

 

Canções.

 

Feridas.

 

Mas agora penso

que viver é perder

com uma pontualidade

impressionante.

 

Perdemos a infância.

 

Depois os amigos.

 

Depois os dentes.

 

Depois a paciência.

 

Depois os sonhos.

 

Depois alguém diz:

 

“você está diferente.”

 

Claro.

 

Estou mais perto.

 

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Não tenho medo da morte.

 

Tenho medo

de que ela descubra

que passei a vida inteira

tentando não encontrá-la.

 

Seria constrangedor.

 

Nós dois

nos conhecemos há anos.

 

Ela estava lá

quando nasci.

 

Eu é que fui

o último a perceber.

 

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Então não.

 

Não vou terminar

esta poesia dizendo

que a vida é bela.

 

Seria uma mentira

muito bem vestida.

 

Também não direi

que a vida é triste.

 

Tristeza é pequena demais

para explicar um corpo

que acorda todos os dias

sabendo,

sem saber,

que um dia

não acordará.

 

A vida não é bela.

 

A vida não é triste.

 

A vida é

 

um verbo tentando

sobreviver ao substantivo.

 

E nós,

 

esses pequenos animais

que inventaram deuses,

poemas,

fronteiras

e aniversários,

 

continuamos chamando

a contagem regressiva

de

 

VIDA.

 

Até que alguém,

em algum lugar,

 

feche nossos olhos

 

e finalmente

 

pare de mentir.

 

 

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