— Diabo, há uma tristeza que não sei expulsar. Ela corre pela minha pele, desce pelo sangue, volta ao coração e retorna ainda mais forte. - Maria coloca as mãos cansadas sobre o peito. - Às vezes penso que, se eu chorasse tudo, se lhe desse finalmente toda a dor que me pede, ela se cansaria de mim.
— E por que deveria ser cansar, Maria?
— Porque eu não quero mais carregá-la.
— Não quer?
Maria permaneceu em silêncio.
— Talvez seja esse o problema — disse o Diabo. — Você fala tanto em se livrar da dor que nunca se perguntou o que perderia sem ela.
— O que eu perderia?
— A única coisa que nunca te abandonou.
Maria baixou os olhos.
— Isso é cruel.
— É apenas uma análise, minha querida.
Cruel é chamar de inimigo aquilo que você transformou em companhia.
— Eu não escolhi sofrer.
— Não. Mas talvez tenha escolhido, sem saber, continuar pertencendo ao sofrimento. Há uma diferença.
— Então por que ela fica?
O Diabo sorriu.
— Porque você ainda a chama de “ela”.
Maria não respondeu.
— Enquanto houver uma dor dentro de você — continuou ele — haverá alguém para culpar, alguém para perder,
alguém para esperar que finalmente a acolha.
— E se eu deixar de esperá-la?
— Então talvez descubra o que sempre evitou.
— O quê?
Ele se aproximou.
— Que depois da dor não existe necessariamente paz, Maria. Às vezes existe apenas você.
E foi então que Maria compreendeu
o que mais a aterrorizava:
talvez não quisesse apenas que a dor fosse embora. Talvez temesse descobrir quem seria sem ela.