Kauane de Moraes

Maria e a companhia

— Diabo, há uma tristeza que não sei expulsar. Ela corre pela minha pele, desce pelo sangue, volta ao coração e retorna ainda mais forte. - Maria coloca as mãos cansadas sobre o peito. - Às vezes penso que, se eu chorasse tudo, se lhe desse finalmente toda a dor que me pede, ela se cansaria de mim.

— E por que deveria ser cansar, Maria?

— Porque eu não quero mais carregá-la.

— Não quer?

Maria permaneceu em silêncio.

— Talvez seja esse o problema — disse o Diabo. — Você fala tanto em se livrar da dor que nunca se perguntou o que perderia sem ela.

— O que eu perderia?

— A única coisa que nunca te abandonou.

Maria baixou os olhos.

— Isso é cruel.

— É apenas uma análise, minha querida.
Cruel é chamar de inimigo aquilo que você transformou em companhia.

— Eu não escolhi sofrer.

— Não. Mas talvez tenha escolhido, sem saber, continuar pertencendo ao sofrimento. Há uma diferença.

— Então por que ela fica?

O Diabo sorriu.

— Porque você ainda a chama de “ela”.

Maria não respondeu.

— Enquanto houver uma dor dentro de você — continuou ele — haverá alguém para culpar, alguém para perder,
alguém para esperar que finalmente a acolha.

— E se eu deixar de esperá-la?

— Então talvez descubra o que sempre evitou.

— O quê?

Ele se aproximou.

— Que depois da dor não existe necessariamente paz, Maria. Às vezes existe apenas você.

E foi então que Maria compreendeu
o que mais a aterrorizava:

talvez não quisesse apenas que a dor fosse embora. Talvez temesse descobrir quem seria sem ela.