Feiticeira

EGO DA CARNE

Perdi-me na profundidade do teu ego,
num mergulho lento que me levou a territórios onde a pele pensa.
Já não sei onde estou, apenas sinto
as paredes vivas das tuas entranhas a respirar em torno de mim,
a prender-me num labirinto onde o desejo deixou de ser meu.

Aqui, onde repouso dentro da tua sombra,
tudo pulsa contigo.
O ardor que me guia é o teu,
uma chama silenciosa que me invade
como quem reclama o que sempre lhe pertenceu.

O céu guarda memórias das nossas noites frias,
das horas em que o teu abraço me incendiava o peito
e transformava o cansaço do corpo
num intervalo sagrado entre prazer e abandono.
Eram noites em que o suor se tornava linguagem
e o toque, oração.

Devora-me nas tuas ausências,
quando o teu corpo não está,
mas ainda vibra no eco da minha pele.
Deixa que eu habite as tuas contemplações infinitas,
esse modo lento com que me olhas,
capaz de me despir mesmo quando me esquivo.

As raivas antigas da tua carne,
tantas vezes guardadas como segredos,
envolvem-me e apertam-me junto ao teu coração.
E descubro que é nesse lugar escondido
que o teu desejo repousa,
um animal tranquilo que desperta
sempre que pronuncio o teu nome.

E eu, perdida dentro de ti,
aceito não me encontrar,
porque há corpos feitos para se perderem
e o teu é o território onde quero continuar a desaparecer.

FEITICEIRA