Oswaldo Jesus Motta

Banco dos Réus

Ela julga.

Sorri.

Sentencia.

Senta-me no banco

dos réus —

e espera, calada,

como quem tece

a espera

sem pressa.

Diz que carrego

um enredo

pronto para cada espanto.

Não crê.

Explico, tranquilo:

são quase cinco décadas

de chão percorrido.

Um susto,

uma marca,

cisco

que o tempo

não soube roubar.

Lá fora,

um cão late.

Depois,

o silêncio.

Ela finge aceitar.

Suspeita.

Talvez

tenha razão:

como bastaria

uma fábula

para cada coisa viva?

A dúvida

não indaga.

Acusa.

E eu, teimoso, calo.

Ofereço-lhe apenas

outra narrativa:

a de um homem

que temia

toda porta

ainda fechada —

até descobrir

que a verdade

não corre,

não implora,

não se explica.

Mantém-se.

Mesmo onde

ninguém lhe dê guarida.