Ana Gonçalves

Fome do real e material

Tirei uma pedra no meio do meu trilho,

um corpo que pedia do meu peito o próprio brilho,

mas o lirismo doente daquela secreção lenta,

nem a seiva que nutre quem nada deseja e não enfrenta,

e não sustentou a febre com que o real me alimenta.

Fui a raiz espessa, o motor desmesurado,

onde havia a mesma queixa do quarto, passo e passado estagnado, 

cansei de dar meu sangue ao fantasma da indecisão,

e rachei o silêncio com a sola e com a mão.

Deixei a paralisia no quarto trancado,

para habitar o presente que foi resgatado,

e jamais reclamar do meu passado,

pois estive onde deveria e queria estar, 

e nunca fiquei onde não queria  ficar.

Sob o mesmo teto a aliança se apronta,

na mesa de estudo onde o esforço dos dois desponta,

dois passos e corpos inteiros que partilham a labuta,
sem a covardia de quem foge da luta.

Amanheço inteira sobre o chão que escolhi,

desmanchei a pedra raza, vazia e oca do homem que um dia achei que conheci, e esqueci.

Tenho a fome da terra, a máquina que avança,

e a matéria do mundo dobrada à minha esperança.