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Abaixo da Superfície

 

 

Escondi meu passado sete palmos abaixo da terra,

onde a raiz não pergunta

por que uma flor nasceu de uma guerra.

Enterrei o homem que fui

sem padre, sem sino, sem despedida,

porque certas mortes são mais educadas

quando ninguém sabe que aconteceram em vida.

 

Ali jaz o sujeito

que sorria sem desconfiar do espelho,

que amava sem contar as cicatrizes,

que acreditava na felicidade

como um bêbado acredita no último copo:

sabendo que talvez seja mentira,

mas pagando mesmo assim.

 

Eu o enterrei com as próprias mãos.

 

E talvez essa seja a pior parte.

 

Porque ainda lembro de como ele amava.

Ainda lembro de como acreditava.

Ainda lembro daquele idiota

que chamava esperança de futuro

e não percebia

que o futuro também sabe cavar.

 

Sete palmos.

 

Não parece tão fundo

quando se está acima da terra.

Mas experimente descer

com todas as lembranças nas costas

e verá que o inferno

não precisa de fogo.

 

Basta memória.

 

Às vezes converso com ele durante a madrugada.

 

Pergunto:

 

— Ainda está aí?

 

E o silêncio responde

com aquela educação mórbida

de quem sabe mais do que deveria.

 

Então eu rio.

 

Porque, sinceramente,

há algo de engraçado

em enterrar um homem

e continuar usando o nome dele.

 

Talvez eu tenha enlouquecido.

 

Talvez tenha sido ele.

 

Talvez nenhum dos dois exista mais

e isto seja apenas uma carta

escrita por alguém

que não encontrou ninguém

para entregá-la.

 

Mas se um dia você quiser encontrá-lo,

não procure nos meus olhos.

 

Eles aprenderam a mentir.

 

Não procure no meu sorriso.

 

Ele aprendeu a sobreviver.

 

Venha para baixo da superfície.

 

Sete palmos abaixo da terra,

há uma velha fotografia,

um coração enferrujado

e um homem que ainda acredita

que alguém pode voltar para buscá-lo.

 

Ou talvez não haja nada.

 

Talvez você cave até os ossos

e encontre apenas terra.

 

Talvez encontre um túmulo vazio.

 

Talvez encontre a mim.

 

E, se encontrar...

 

não tenha tanta certeza

de que fui eu quem estava enterrado.

 

Porque esta noite

eu ouvi alguém cavando

do outro lado da parede.

 

E juro que a voz era minha.

 

Ou dele.

 

Ou sua.

 

Não sei.

 

Mas continue cavando.

 

A superfície está ficando

cada vez mais longe.

 

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