Lucien Vieira

DA POLÍTICA À POLITICAGEM: Desvios e Desafios na Organização do Poder Contemporâneo

Por Lucien Vieira | 01 de maio de 2026

O homem é por natureza um ser político. Essa afirmação é um dos pilares da filosofia clássica, cunhada por Aristóteles (384 a.C. – 322 a.C.) em sua obra Política. Na prática, a política é inerente à organização da vida coletiva; caracteriza-se por debates, disputas e consensos que visam à definição do poder e à tomada de decisões voltadas ao desenvolvimento e à melhoria social. 

Entretanto, há uma série de conflitos de interesses inerentes aos processos políticos propriamente ditos, que, ocasionalmente, por cobiça, busca pelo domínio, ou razões afins, os desviam dos seus fins primordiais — a preocupação com o bem-estar social. Isso leva a atos de desordem e, não raro, a práticas ilícitas, marcadas por corrupção e desvios de verbas, podendo resultar inclusive em risco de rupturas institucionais.   

Portanto, sob o ponto de vista filosófico aristotélico, a política encontra-se incrustada em nós desde sempre — seria uma condição humana, quer a adotemos como instrumento do cotidiano nas relações sociais, e nas interações com o Estado, quer não.

Há, por exemplo, cidadãos que a exercem com zelo, empregando-a em prol do bem comum — que se fundamenta como o conjunto de condições sociais e econômicas capazes de sustentar o mínimo bem-estar, tais como saúde, educação, segurança, remuneração justa, entre outros.
 
Por outro lado, existem aqueles que se mantêm neutros. Segundo a pesquisa Panorama Político (2024), realizada pelo Instituto DataSenado, do universo de mais de 21 mil entrevistados, cerca de 40% das pessoas se enquadram neste perfil. Há, no entanto, teorias que os classificam como omissos políticos, uma vez que tal posicionamento tende a favorecer a manutenção do status quo.

Por fim, há também os que distorcem o sentido coletivo da política, utilizando-a como escada para a obtenção de vantagens pessoais e para o benefício de seus pares. 

Neste instante nasce a politicagem — pautada por interesses pessoais e troca de favores em detrimento do bem comum, fenômeno que tem se tornado ordinário nas três esferas de governo nos últimos tempos. O processo é ainda mais notável nas ações do Congresso Nacional, que tem se apropriado das prerrogativas públicas para fins privados. 

Assim, a expressão Casa do Povo — consagrada referência ao Congresso Nacional —, por manter-se visivelmente desassociada dos interesses da sociedade civil, já não se encaixa tão facilmente a este Legislativo. 

Corroborando o exposto, em setembro de 2025, por exemplo, observou-se o escandaloso caso da Proposta de Emenda Constitucional das Prerrogativas, popularmente conhecida como “PEC da Blindagem”. Conforme publicado pela Agência Senado (2025) a proposta alteraria a Constituição ao determinar que parlamentares não poderiam ser processados sem autorização prévia de suas respectivas Casas. Curiosamente, o texto foi aprovado na Câmara dos Deputados por cerca de 72% dos parlamentares. O projeto gerou forte repercussão negativa perante a sociedade civil e acabou sendo rejeitado na Comissão de Constituição, Justiça e Cidadania (CCJ) do Senado Federal, evidenciando o abismo entre o interesse público e as prioridades corporativas do Poder Legislativo.

Ainda para aclarar, há, em tramitação, o imbróglio envolvendo o Banco Master. Supostamente, uma série de parlamentares de variados partidos, além de autoridades dos demais poderes, estão envolvidos. Segundo a Polícia Federal (PF), as investigações apontam para fraudes da ordem de bilhões. Consequentemente, como tem sido comum, as implicações adentram furtivamente os gabinetes dos poderes, de onde engendram-se os pactos protecionistas particulares.

Durante a sabatina de aprovação à vaga de um Ministro do STF em 29 de abril de 2026, pelo Senado Federal, foi possível observar supostos indícios de uma dinâmica que remete à teoria do “pensamento nós-eles da mente tribal” descrita por Elliot Aronson na obra O Animal Social. Tal fenômeno se manifesta quando tendenciosamente registram-se acordos — por grupos ideológicos ou não —, diante de uma causa, em detrimento de análises críticas e imparcial dos acontecimentos,  comprometendo inclusive a própria finalidade do processo — que deveria se pautar por critérios técnicos, jurídicos e republicanos.

O contexto nos remete à ideia de que, da política à politicagem, há apenas um passo a ser cruzado sobre uma linha tênue. Esta linha distingue moral, ética, caráter — características essenciais de um cidadão íntegro — de mau-caratismo, má-índole, desonestidade, falsidade — predicados que provêm da natureza de um sujeito de má-fé. 

Percebe-se que, aos poucos, ela está se deteriorando. Isso significa que os argumentos em prol da coisa pública, onde predominam os ideais republicanos, passam a ser desconsiderados e tomados pelo fisiologismo e pela dialética tribal. O bem-estar social é deixado de lado, e as estruturas do Estado se fragilizam, colocando-se em posição de autoproteção.  

Diante disso, estimular a personalidade política — enquanto prática consciente, voltada à proteção da coletividade — exige superar a insolência destes que se consideram imunes às normas do Estado. Estes que, sistematicamente, ano após ano, arquitetam subterfúgios disfarçados de decoro e instrumentalizam o poder em prol de si mesmos, de seus pares, familiares e interessados. 

Em resumo, reafirmar a cidadania consciente é o antídoto primordial contra essa pseudoelite e, sobretudo, contra a degradação democrática.