Ana Gonçalves

Vício da miragem

A paixão é um reflexo côncavo em dia claro,

invetando gigantes com argamassa e saliva.

Gastou seu sustento no que era mais caro,

amando o desenho de carne esquiva.

No choque da colisão, no atrito do fato,

o mito desaba com estrondo no chão.

 

 

O outro é apenas um bicho sensato,

e a fome que tinha não coube na palma da sua mão.

Fugir do real é um vício covarde,

encarar o vazio exige destreza.

Cobra do mundo a promessa que arde,

mas cospe no prato da crua crueza.

 

 

Concedo o perdão por puro cansaço,

absolve o fantasma pra não ver seu réu.

Amanhã se engana de novo no traço,

no ciclo acomodado, bebe veneno novamente achando que é mel.