L.V

Companhia bulímica

Os números dançam na balança como promessas citadas ao ar; estabelecendo metas e revelando imperfeições.

 

Uma grama aqui, outra alí e de repente sem perceber me vejo no mesmo lugar no qual tanto tentei sair; é surpreendente a forma que a exaustão substitui a obsessão quando se trata de comida. 

 

Quando foi que viramos inimigas? Costumávamos funcionar bem juntas antes do transtorno, antes das compulsões, antes dos comentários.

 

Os comentários daqueles que não tem a mínima idéia do quanto podem ferir com suas palavras. Suas risadas eram como lâminas que cortam minha garganta sem pena, me impedindo de respirar, eu deveria mas não os odeio, pelo contrário, pus o ódio de suas palavras como padrões, como objetivos.

 

A ilusão da beleza na magreza extrema, em corpos não saudáveis, o medo intenso de se ver acima do peso, as maneiras de compensar quando perco o controle; os vômitos, os abdominais fora de hora, os laxantes, tudo.. tudo isso usei contra mim.

 

E o que fizeram quanto à isso? Elogiaram, meus olhos encheram se de lágrimas ao ouvir suas palavras, reforçando ainda mais que quanto mais magra for, mais bonita serei; então você se parabeniza pelos jejuns prolongados, todo o choro e a ansiedade se transformam em alegria, por um instante.

Cada curva conta uma história, cada corpo significa resistência, me sinto bem por dizer mas incapaz de compreender, porque a terapia é linda mas a bulimia é minha verdadeira companhia nas tempestades.