Kauane de Moraes

Isso

Alguma coisa certa em mim se partiu
sem fazer ruído.

E pela pequena rachadura
nasceu qualquer coisa.

De dentro de mim,
para mim.

Algo que era eu
e que, no entanto,
eu nunca tinha visto.

Queria a luz.

E eu deixei.

Não o toquei.

Não o cortei.
Não o arranquei.
Não lhe pedi que parasse.

Deixei-o crescer.

Que tomasse meu peito,
minha alma,
os lugares todos
onde ainda houvesse espaço.

E cresceu.

Cresceu sem pressa,
como se soubesse
que eu não fugiria.

Quando já não houvesse mais espaço,
deixaria que transbordasse.

Que transbordasse sobre mim,
para dentro de mim.

E não fiz nada.

Pela primeira vez,
não fiz absolutamente nada.

Apenas fiquei ali,
deixando-me acontecer.

E assim contemplei,
de dentro de mim,
toda a obra de mim.

Numa eternidade
de fim e começo.