Tragicômico
(por Davi Göss)
Sou a ferida e o punhal,
o sangue e o vampiro,
a vítima e o carrasco,
o incêndio e o pavio.
Tenho arrumado a vida
com a calma de quem mente
O trabalho está em dia
e o caos dentro da mente.
No amor, sou meio estranho:
dou abrigo e dou adeus,
tem dias que quero o mundo,
noutros, não quero nem os meus.
Alguns amigos viraram
fotografias no celular,
não sei se fui eu que fui embora
ou se cansei de explicar.
Lá em casa, o silêncio
já aprendeu a me ferir,
há paredes que sabem demais
e pessoas que preferem fugir.
Cada canto guarda um resto
do que ninguém ousou falar
e sempre, o pior barulho
É o da minha chave, ao chegar
E há linhas no vidro
que ainda sabem me chamar,
mas o sono foge dos olhos
e a cabeça não quer parar.
Tenho pressa até parado,
mas já não quero escutar.
Sou a ferida e o punhal,
a mão, o corte e o sangue.
Se um de nós cair primeiro,
o outro cai junto,
No mesmo golpe, no mesmo instante.
Um é a dor que não passa,
o outro me mantém em desgraça.
E quando a guerra acabar
Eu já sei quem vai sobrar
Um de nós fecha a ferida
O outro insiste em sangrar