LASANA LUKATA

Mares

 

Pela Linha Vermelha começa o mar:

traineiras, aves voando rente a água

e eu me deslocando com essa mágoa.

 

não recordo quando me tornaram

um morto em vida

e esta corrosiva centelha

se apoderou de mim.

 

a garça pousa nos coágulos da água,

pequenos assoreios, monturos aquáticos.

astutíssima garça precisou se reinventar

para viver como quem chega aos sessenta,

às obstinadas perdas.

 

a luminosa boia verde

torna as águas melancólicas,

mais pesadas minhas asas.

 

Começa um mar cinzento, de cimento,

mar de pedras, de tijolos sem chapisco,

de chapisco à espera do reboco.

um mar de casas sem asas,

coaguladas na miséria,

um mar de vice-mortos.

 

à espera do emboço,

tudo fica no esboço,

nas irregularidades,

nos vazios.

 

a espera dobra de preço

com a tua ausência.

e queixa-se Deus:

você tem minhas bênçãos por tardias...

 

E começa o mar de mortos,

por projéteis e projetos,

mar de tiros,

mar do cemitério,

mar onde tudo naufraga,

mar onde tudo termina

e verdadeiramente começa

essa amarga despedida.