Ayalah VerĂ´nica Berg

Intervalo Entre Quedas

 

A luz se dobra.
A tarde arde sem promessa.
 
Caminhaste entre taças,
eu entre sombras úmidas.
Nenhum de nós tocou o centro.
As mãos — ainda tremem.
 
Esqueceste o prego,
a ferrugem, o quarto.
Não há pontes.
Só o ruído seco da persiana
contra o som do tempo.
 
O medo governa a névoa.
Rejeito o amor barato,
o vinho morno,
a boca que mente sem saber. 
 
Tudo termina.
Previsível.
Os bastidores exalam espera. 
 
Uma semana, talvez.
O intervalo entre duas quedas.
Adeus em ondas —
inverno, órbitas vazias.
 
O dia insignificante escorreu
na era do Lobo.
Restou o grandioso.
E o grandioso é trivial.
 
Jejum.
Portas do inferno.
Ainda assim, ergo a cabeça:
é preciso imaginar-se
queimando. 
 
 
Intervalo Entre Quedas 
  de Ayalah Verônica Berg