Talvez exista um amor vindo em minha direção.
E essa possibilidade
me parece quase uma piada.
Depois de tantos invernos
aprendi a não esperar pela primavera.
Ainda assim,
há qualquer coisa em mim
que continua deixando a porta aberta.
Não sei por quê.
Talvez seja estupidez.
Talvez seja esperança
com vergonha de admitir o próprio nome.
Há dois caminhos dentro de mim:
um quer permanecer,
o outro já está indo embora.
E eu,
como sempre,
fico no meio.
Não por indecisão.
Talvez por cansaço.
Talvez porque tenha passado tanto tempo
tentando encontrar um lugar no coração dos outros
que esqueci de perguntar
se havia algum lugar para mim.
Penso no amor
como quem pensa numa cidade
onde nunca esteve.
Conheço o endereço.
Conheço as ruas.
Até sei como chegar.
Só não sei
se alguém abriu a porta.
E se um novo amor vier,
talvez eu sorria.
Não porque não tenha medo,
mas porque aprendi
que certas feridas ficam mais elegantes
quando ninguém percebe que estão sangrando.
Que venha.
Eu não prometo ficar.
Não prometo partir.
Talvez eu simplesmente desapareça
entre uma escolha e outra,
entre o homem que fui
e aquele que ainda não consegui ser.
E se alguém perguntar
por onde fui,
diga apenas:
“Ele estava procurando o caminho.”
Não diga que o encontrou.
Eu nunca tive tanta sorte.
Talvez o caminho para o amor exista.
Talvez esteja diante dos meus pés.
O problema nunca foi encontrar a estrada.
Foi descobrir,
depois de tantos anos,
se alguma estrada
também queria me levar.