Vim de um chão que tinge a pele antes de escolher qualquer nome.
A terra vermelha impregna debaixo das unhas,
sobe pelo tornozelo e fixa no corpo uma certidão de origem,
certidão que dispensou brasões ou sobrenomes populares de ruas e praças,
a minha gente era apenas quem estava ali, partilhando o silêncio da noite passada.
A cidade cabe inteira no estalo de um bairro feito de paralelepípedo sob uma carroça.
As casas de madeira não fingem permanência,
elas sabem do cupim, da chuva grossa, da tinta óleo que descasca revelando as estrias do pinho.
Guardam a anatomia exata de quem levantou parede sem projeto, calculando o mundo pela régua curta do que é necessário.
No domingo, o tempo muda de marcha.
As cadeiras de fio de plasticos saem para a calçada,
como se a rua fosse a extensão da sala.
Homens e mulheres que passaram a semana curvados, pele curtida por um sol que não perdoa, sentam-se agora com a calma desconcertante de quem sobreviveu a mais sete dias de aço e poeira.
Na esquina, o boteco cumpre seu ofício duplo e pontual, até o meio-dia, junta a cerveja gelada rala do balcão e a fila da televisão chiando ao fundo, esperando o frango assado rodar no espeto para alimentar a mesa do meio-dia.
Observo uma sociologia crua e perfeita nesse ritual, de levar o almoço embrulhado em papel-alumínio,
caminhando devagar para o encontro matinal.
Às quatro da tarde, o centro de gravidade se desloca para o pátio da Fepasa.
Onde antes rangiam vagões e dormentes de ferro fundido,
existe uma vida que agora corre por conta própria em um campinho de futebol, levantando grama a cada chute torto,
as rodinhas do skate estalando no concreto da pista,
os passos ritmados de quem caminha contornando os trilhos desativados.
Escuto conversa solta que não tem pressa de virar conclusão.
Porque entre uma casa de tábua e uma curva de estrada,
a gente aprendeu a fabricar o próprio ritmo,
no acorde do violão na varanda,
no traço feito sem pretensão de museu,
na teimosia de quem transforma terra vermelha em permanência e beleza.