Cauã Santos

Debaixo do tapete

Vou afundar

a cabeça nesse travesseiro 

para ser esquecido.

 

Nessa casa,

sou como poeira 

sendo guiado pelos outros.

E sempre jogado 

para debaixo do tapete.

 

Perto do sofá,

deixo as dores aparecerem 

com um copo de café na mão.

 

Da tela da TV,

a estática preenche

o silêncio da sala.

 

Ao redor do sofá,

as velhas cadeiras fazem barulho.

 

Os outros escolhem

escutar as paredes 

em vez da poeira

que está debaixo dos seus pés.

 

Do fundo do quintal,

ouço os risos de alegria,

com fartura sobre a mesa. 

 

Minha mãe, 

sempre fingindo para visitas,

que o amor vem de casa.

 

Da ponta da janela,

aqueles olhos gentis

fervem de raiva contra mim.

 

Fecho os olhos 

para segurar as lágrimas,

abaixo o corpo

para me entregar ao piso 

branco da sala.

 

Deitado,

abro os olhos para o teto.

 

Teias de aranhas 

acompanham a pintura velha,

nem a lâmpada funciona direito.

 

Levanto-me.

 

Caminho entre os cômodos, 

carregando em meus ombros,

o arrasto dos pés.

 

De frente para o corredor,

vejo o próximo destino.

 

Abro a porta do banheiro.

 

Diante do espelho,

percebo as olheiras escuras,

sorriso fraco,

nariz escorrendo.

 

Toco em meu cabelo,

para aliviar o cansaço do dia anterior.

 

Lavo o rosto

com força nas mãos,

para afastar os pesadelos.

 

Logo depois, 

abro o chuveiro,

para água cair, 

fecho os olhos para sentir. 

 

Deixo o corpo 

para a água levar.