Vou afundar
a cabeça nesse travesseiro
para ser esquecido.
Nessa casa,
sou como poeira
sendo guiado pelos outros.
E sempre jogado
para debaixo do tapete.
Perto do sofá,
deixo as dores aparecerem
com um copo de café na mão.
Da tela da TV,
a estática preenche
o silêncio da sala.
Ao redor do sofá,
as velhas cadeiras fazem barulho.
Os outros escolhem
escutar as paredes
em vez da poeira
que está debaixo dos seus pés.
Do fundo do quintal,
ouço os risos de alegria,
com fartura sobre a mesa.
Minha mãe,
sempre fingindo para visitas,
que o amor vem de casa.
Da ponta da janela,
aqueles olhos gentis
fervem de raiva contra mim.
Fecho os olhos
para segurar as lágrimas,
abaixo o corpo
para me entregar ao piso
branco da sala.
Deitado,
abro os olhos para o teto.
Teias de aranhas
acompanham a pintura velha,
nem a lâmpada funciona direito.
Levanto-me.
Caminho entre os cômodos,
carregando em meus ombros,
o arrasto dos pés.
De frente para o corredor,
vejo o próximo destino.
Abro a porta do banheiro.
Diante do espelho,
percebo as olheiras escuras,
sorriso fraco,
nariz escorrendo.
Toco em meu cabelo,
para aliviar o cansaço do dia anterior.
Lavo o rosto
com força nas mãos,
para afastar os pesadelos.
Logo depois,
abro o chuveiro,
para água cair,
fecho os olhos para sentir.
Deixo o corpo
para a água levar.