A carne é um sono que caminha.
Os dias, um rumor de passos na sala vazia.
Construímos castelos de fôlego
sobre um abismo que não se cansa de esperar.
Não há profecia no cair da tarde,
apenas o lento desbotar da luz.
A cidade arde em seus próprios hábitos,
e nós, seus fantasmas, assinamos recibos
enquanto o teto desaba em silêncio.
Aceitamos a mecânica do declínio
com a graça de quem já esqueceu
o sabor de outro destino.
É um longo adeus que se confunde
com o ato de respirar.
Até que o horizonte queima os olhos,
e o mundo, por fim, reduz-se
a seu tamanho verdadeiro: um grão de poeira
na palma da mão aberta do tempo.
E felizes, afinal,
andamos em transe,
mas plenamente acordados para a queda.
O mundo desaba em câmera lenta
e nós,
sonâmbulos do próprio desaparecimento.
Assistimos,
com os olhos abertos,
o abismo que insistimos em chamar de destino.
Sonâmbulos
de Ayalah Verônica Berg