Bebella and Lua

A morada da tempestade

 

 

A tristeza vem em dias formosos,

em dias frios, em tardes chuvosas;

vem sem aviso,

sem bater à porta,

sem pedir licença para fazer morada.

 

E onde, afinal,

faz morada a insegurança?

 

Quando cresce nos pequenos detalhes,

quando se alimenta do quase nada,

torna-se monstro.

E o monstro, uma vez criado,

aprende a nutrir-se das pequenas coisas.

 

— Menina, não chores.

Respira.

Tu precisas respirar.

 

Mas por que, em meio à dor,

não tens uma mão que te puxe,

nem sequer um abraço que te acolha?

 

Então abraçaste a tristeza

e fizeste morada na ansiedade.

 

As lágrimas correm como um dilúvio,

molhando cada recanto de teu rosto,

como se uma tempestade inteira

houvesse desabado dentro de teus olhos.

 

Há quem diga que a tempestade é feia.

 

Eu, porém, nela vi beleza.

 

Vi beleza na dor,

na angústia,

na solidão.

 

— Menina, por que choras?

 

Acaso a culpa não é tua?

Não foste tu quem criou expectativas

de que alguém viria te abraçar?

 

Abraça, pois, a tempestade.

Talvez ela, em sua fúria,

saiba acalmar-te.

 

Dizem os antigos

que os opostos se atraem.

 

Então faz do dilúvio a tua morada.

 

Traz contigo o teu cigarro,

traz contigo a sombra da morte;

senta-te diante dela,

se preciso for,

mas não lhe entregues tua alma.

 

Talvez, depois de tanto silêncio,

ela apenas queira ouvir

aquilo que grita em teu peito.

 

— Por que gritas, menina?

— Por que choras?

 

A insegurança bateu à tua porta.

Vieram os medos,

vieram os segredos,

vieram todas as coisas

que jamais ousaste dizer.

 

E tu, menina?

 

Já não sabes?

 

Por que pelejas,

por que gritas,

por que imploras

por um peito

que não deseja aquecer-te?

 

Mas tudo bem, menina.

 

Eu sou como tu.

 

Também espero o melhor

daqueles que não sabem oferecer.

 

E talvez seja essa

a nossa maior tristeza:

esperar calor.

Porque choras, menina?

Tampa tua boca,

para que vivos e mortos

não possam ouvir

o ranger da tua alma,

o teu soluço,

o teu sussurro

atado à tristeza.

Eis que é preciso levantar.

Levanta, menina.

Faze tuas coisas.

Toma teu banho.

Faze o que tens de fazer.

E depois, quando ninguém estiver olhando,

chora.

Chora em silêncio,

sem que ninguém perceba

o dilúvio que carregas no peito.

Quando quiseres gritar,

não grites.

 

Quando quiseres chorar,

não chores.

 

Guarda o pranto atrás dos dentes,

como quem guarda palavras

que jamais encontraram ouvidos.

 

Mas a culpa não é tua, menina?

 

Por esperar um abraço?

Por desejar calmaria?

Por querer, somente uma vez,

que alguém permanecesse

quando a tempestade chegasse?

 

Porque esperas?

 

Já não te cansaste de esperar?

 

Olha-te.

 

Estás na estante

como um livro antigo

que ninguém deseja observar.

 

Passam as mãos por tuas páginas

como se fossem lê-las,

como se fossem conhecer tua história,

mas logo te deixam lá.

 

Sozinha.

 

Empoeirada.

 

Esquecida entre tantos livros

que jamais conheceram

o peso de tua história.

 

Tu paraste no tempo, menina.

 

No frio.

 

No cruel.

 

E dize-me:

 

Quando tornarás a contemplar

o nascer do céu?

 

Quando tornarás a ver

o primeiro raio do sol

rompendo a escuridão?

 

Não te deixes morrer.

 

Não ainda.

 

Há uma rosa vermelha

vibrando dentro de ti.

 

Uma rosa que ainda vive

entre os espinhos,

mesmo sob a chuva,

mesmo quando o inverno

parece não ter fim.

 

Ela pede que te aqueças.

 

Pede que, do sangue de sua cor,

retires um pouco de vermelho

e o ofereças a ti mesma

em forma de amor.

 

Ama-te, menina.

 

Ainda que ninguém saiba fazê-lo.

 

Ainda que aqueles a quem ofereceste teu coração

tenham escolhido deixá-lo ao frio.

 

Não te deixes morrer.

 

Abraça-te.

 

Abraça a ti mesma

quando nenhuma outra mão

vier ao teu encontro.

 

E mesmo que o mundo desabe,

mesmo que os céus se rompam,

mesmo que a terra pareça fugir

debaixo de teus pés,

 

faz de ti

a tua própria morada.

 

Pois haverá dias

em que o céu será cinzento,

dias em que o frio parecerá eterno,

dias em que a tristeza

voltará sem aviso.

 

E, ainda assim,

haverá uma rosa.

 

Haverá um pequeno sopro

dentro de ti.

 

Haverá uma menina

que, apesar de tudo,

ainda respira.

 

Então respira, menina.

 

Respira.

 

Porque a tempestade

não haverá de afogar-te

se, em meio ao dilúvio,

aprenderes a dançar.

 

Dança, menina.

 

Dança sobre as águas.

 

Deixa que a chuva lave

aquilo que não pudeste dizer.

 

Deixa que o trovão leve consigo

os medos que tanto te assombraram.

 

E quando o céu, enfim,

tornar a clarear,

 

quando o primeiro raio de sol

tocar teu rosto cansado,

 

talvez descubras

que nunca foste feita

para fugir da tempestade.

 

Foste feita

para atravessá-la.

 

E, enquanto atravessas,

guarda contigo a rosa.

 

Guarda contigo a menina.

 

Guarda contigo a esperança.

 

Pois talvez a tempestade

nunca tenha vindo

para te destruir.

 

Talvez tenha vindo

para ensinar-te

a dançar.