Ana Gonçalves

O nervo que pensa, vigília sem trégua

Faz dias em que meu quarto não abriga repouso,

abriga apenas vigília e atrito,

o corpo afunda sob meu colchão enquanto a carcaça resiste,

a consciência devora o silêncio num pacto esquisito,

e o osso do peito suporta um relógio que insiste.

 

Não existe trégua no ato de apenas tentar desligar,

a máquina viva se expande em circuitos de espanto,

cessar o pensar virou ordem difícil de executar,

quando cada fissura do quarto parece um recanto.

 

Tem noites em que a náusea se curva a uma frágil razão,

um pacto tácito entre o pulso e o próprio limite.

Mas logo a vertigem desfaz qualquer contenção,

e o espasmo do anseio retorna sem que eu requisite.

 

Minha carne é um palco de cálculo, peso e desgoverno,

fechar as pálpebras torna ato ainda mais denso.

Não existe alívio no estalo deste falso inverno,

eu sou a vigília, o castigo e o nervo que penso.