Faz dias em que meu quarto não abriga repouso,
abriga apenas vigília e atrito,
o corpo afunda sob meu colchão enquanto a carcaça resiste,
a consciência devora o silêncio num pacto esquisito,
e o osso do peito suporta um relógio que insiste.
Não existe trégua no ato de apenas tentar desligar,
a máquina viva se expande em circuitos de espanto,
cessar o pensar virou ordem difícil de executar,
quando cada fissura do quarto parece um recanto.
Tem noites em que a náusea se curva a uma frágil razão,
um pacto tácito entre o pulso e o próprio limite.
Mas logo a vertigem desfaz qualquer contenção,
e o espasmo do anseio retorna sem que eu requisite.
Minha carne é um palco de cálculo, peso e desgoverno,
fechar as pálpebras torna ato ainda mais denso.
Não existe alívio no estalo deste falso inverno,
eu sou a vigília, o castigo e o nervo que penso.