Amanda S. Moraes

Por eras

Sob a copa de uma betula antiga, onde o tempo hesitava em pousar,

nossa infância tecia pactos de seda e orvalho.

O mundo lá fora era surdo, mas ali, no ventre das raízes,

nossos olhos já sabiam o peso daquilo que a  gente não podia.

Rodamos então por eras sem nome, vestindo peles de rainha, de bruma, de estrela cadente.

Fomos o que o destino quis, em formas tão díspares, tão errantes.

Contudo, bastava um sopro no vento, um eco na multidão,

e a alma, em seu mistério divino, reconhecia aquela voz que não nos permitem ouvir. 

Sempre deram a chance de ser o rio que rompe a margem, o fogo que aquece a noite.

Mas fomos a beleza intocável, o suspiro que não chega a se completar.

E assim foi, e assim ficará; um ciclo de luz que escolheu não se desfazer,

uma obra-prima no fundo do mar.