Carlos Lucena

PASSAGEIROS DO PERFUME

PASSAGEIROS DO PERFUME

Quisera a rosa
do tempo
e, das flores, a eternidade.
Da primavera é apenas um momento,
porque a secura das pétalas
é a presente realidade.

Estações são estações
que levam e trazem felicidades
e são como a órbita do sol, que encerra o dia
e, num piscar, deixa rastros de saudades,
de tristeza ou de alegria.

Tudo é como o perfume,
cuja essência não é longeva.
Como o hálito revela a embriaguez,
assim também revela
a ligeira existência,
quando esse mesmo odor some da tez.

Tudo é sensível
e é indubitavelmente pouco.
O perfume que se sente, porém,
é invisível;
porque, se fosse palpável,
deixaria tudo sensivelmente louco.

Pois sim,
o trilho leva o comboio ao seu destino,
e as flores perfumam,
desabrochando perto do fim.
O cravo no galho é inquilino,
e o comboio no trilho
apressadamente corre por mim.