Antonio Luiz

Ruídos presos a uma manhã de saudades (repostado com alterações)

um barulho de lata alvejada com a funda
um vidro quebrando e a chinelada na bunda
o som murcho de petardos em bola chocha
o doído zunido e vermelho lavrado na coxa

um gemido de carro de bois retratando fé
a Maria no tabuleiro e, na canga, o seu José
com camisa apertada, umbigo de fora e sujo
mais atrás, um Jesus em passo de caramujo

um galho partindo só pra engabelar barriga
quase meio-dia e uns rebuliços de “lombriga”
toco de peroba e o silvo cansado do serrote
diálogos de bicos entre a galinha e o filhote

a menina gritando pra ouvir peru: glu glu glu
longe, um ploff de bolha estourando no ragu
o eco do berro do porco na sua última sanha
e o chiado das rodelas de morcilha na banha

à mesa, olhares falantes de uma gente tanta
os que calaram tão cedo, como o da tia Santa
os serenos ralhando um carinho sem tamanho
e aquele par que ninara, em verde e castanho

 

-- esse poema foi publicado em meu blog pessoal
(https://antoniobocadelama.blogspot.com/) em 24/08/26 –