Garotameiodoce

Sal Santo Curador das Mágoas

Eu parei na fase do ovo chocado,

do pulmão que expande por conta própria.

A dor que é, a obrigação do estado vivo que se cria depois que te espelhem.

 

Não se pode morrer numa quarta-feira, como se tirasse um cochilo no sofá da sua bisavó depois da feijoada.

Porque não se pode ressuscitar, como se acordasse de um cochilo.

 

Eu ainda sou tão nova.

É o que me dizem há alguns anos,?desde que tive minha primeira crise de pânico, aos 10, naquela virada de ano depois que a vovó faleceu.

Ainda aos 18, quando não suportei pensar que o futuro estava na minha frente.

 

Parei na fase que o primeiro contato com o mundo é o da agonia,

da força comunal para os pulmões expandirem,

quando o choro é regra em todas as noites.

 

Eu prometi que escreveria coisas boas e que não falaria de mim.

 

É que quando acordo sinto meus pulmões doerem ao respirar

desejando os arrancar ou desmaiar na cama.

 

É o cigarro, não sou mais um recém-nascido

mesmo que eu tenha de me parir todas as manhãs.

 

Que escorregue das lágrimas o sal santo curador das mágoas, adentro da boca dissolvendo na língua ferida,

Minha goela faminta.

 

Desde minha visão dos sapatos na calçada,

a árvore de pipoca que abriu e estourou,

as flores que caçou,

os segundos que renderiam longas conversas.

as pintas e os cachos castanhos derramados em loiro,

um post-it de amor eterno,

meu cabelo que joguei no lixo.

o tapete persa no chão da sala,

o ventila-dor de teto com cordinha,

chão de taco quebrado.

cozinha ao tamanho do coração de quem ofereceu tudo de si,

o sofá, colado na mesinha com o telefone e um abajur,

disposto dia e noite, horas de boca solta,

com a linha telefônica infinita diante da sua respiração efêmera.

quintal com chão de caco vermelho,

banheiro dos fundos, azulejo azul bebê.

o sol da tarde cabia em tudo,

por qualquer fresta.

seu quarto vazio, móveis todos vendidos.

Onde ficava sua cama, uma marca quadrada escura no coração

no chão de taco.

 

Amanhã terei que acordar e nascer de novo.