Talvez eu tenha criado este nome
porque nunca aprendi a simplesmente olhar.
Há sempre alguma coisa escondida
naquilo que parece banal:
um céu carregado,
uma janela acesa,
uma rua depois da chuva,
o silêncio entre duas pessoas.
The Last Poet nasceu dessa necessidade
quase inexplicável de guardar o que desaparece.
Porque a memória é uma criatura complexa:
ela não conserva o mundo como ele foi,
mas como nós fomos capazes de senti-lo.
Fotografo paisagens
como quem tenta interromper o tempo.
Não para possuir o instante,
mas para provar que ele existiu.
Talvez sejamos todos arquivos ambulantes
de coisas que já não existem.
Colecionamos lugares, vozes, rostos,
versões de nós mesmos
que o tempo condenou ao esquecimento.
E talvez ser poeta
não seja necessariamente escrever versos.
Talvez seja perceber.
Perceber aquilo que o mundo
passa depressa demais para explicar.
Encontrar beleza no que não pede atenção.
Dar significado ao que, para os outros,
é apenas mais uma paisagem.
Por isso, The Last Poet.
Não porque eu seja o último poeta,
mas porque existe em mim
o desejo quase impossível
de registrar alguma coisa
antes que ela se torne memória.
Enquanto o mundo passa,
eu observo.
Enquanto tudo desaparece,
eu guardo.