LASANA LUKATA

Os muçuns

 
eles turvam a água
para que você não veja,
para que você não beba,
para que você não seja,
para que você não saiba,
para que você não suba
e depender da aspereza;
 
turvam a água e são retráteis,
retratos de déspotas a despistar
cinicamente;
 
eles estão na superfície
e nós no fundo, entre náufragos,
como seres estranhos,
se alimentando do que afunda
e está morto;
 
no fundo,
sem vermelho,
sem amarelo,
sem verde,
o azul já se desfaz
escuro e frio
e eles sempre incandescentes.
 
a onça se torna bonita
com a morte do jacaré.
 
eles estão na superfície
e nós no fundo,
em baixa temperatura-
dentes à mostra-
e a pressão aumenta
esse entredevorar-se.
 
tempo em que a palavra esperança é cipreste
e se presta à proliferação de bactérias;
a paciência pula o muro,
e há versos que nascem das feridas,
da injustiça, do incêndio, do abuso,
e até os poemas são equipados para a guerra.