R. Barbosa Gameiro

Flores-de-kelly

A máquina humana sente

Mil sinais com seus sensores,

Deixando um milhão latente,

Nos mais diversos setores.

Achará ela a serpente

Encoberta pelas flores?

Pois… é que as flores são belas!

Eu cá meto o foco nelas…

 

Se um jardineiro houver

Que floreie, com vil ardil,

Um canteiro de malmequer

Ocultando algum covil,

Passarei, se assim me der,

Num calor primaveril,

Com contemplações singelas

E sem mínimas cautelas.

 

Também qualquer arquiteto

Pranta flores de papel

Onde quiser que o projeto

Seja sujo ou infiel.

 

Posto isto, agora noto

O que o olho me escondeu:

Desde a peça, a gente, o voto,

Às matérias do liceu.

 

Por me tirarem da vista

O que de secreto exista,

Chamo-lhes flores-de-kelly.

 

Escondem mesmo a própria rima,

Impedindo que me exprima

Com termos que eu nunca li.