Há em mim um querer que não é raso,
Não cabe em noites breves, sem raiz.
Meu corpo já conhece o doce acaso,
Mas a alma quer ficar e não só partir.
Beijei bocas que o tempo não guardou,
Toquei peles que o vento levou embora,
Houve fogo, sim, mas não ficou calor,
Só um silêncio frio após a aurora.
Não nego o prazer, nem o caminho,
Nem os encontros soltos pela vida,
Mas cansa ser abrigo por instantes,
E nunca ser morada escolhida.
Eu quero mais que um nome no telefone,
Mais que um desejo urgente e passageiro,
Quero alguém que permaneça quando o corpo dorme,
E acorde junto por inteiro.
Sei do risco, da entrega e da queda,
Do amor que às vezes vem para ferir,
Mas ainda assim meu peito não se fecha:
Ele insiste e ele quer existir.
E se houver um homem no meu destino,
Que venha sem pressa, mas com verdade,
Não para caber num momento qualquer,
Mas para ficar e poder chamar isso de saudade.