Carlos Lucena

VIDA DE CABOCO

VIDA DE CABOCO

Eu sou matuto da mão calejada 
A foice é minha caneta
E o lápis é o cabo da enxada

Não tenho bonita morada
Minha casa é uma choupana 
e sua coberta  é de paia.
As parede não é pintada 
E minha cama é uma rede de maia.

A luz é de candeeiro
E o combustive é o gaiz
As potrona 
é banco no terrero
Que marceneiro 
num faiz

E quando o sor 
fica posto 
O cabco vorta pra casa
No batente lava 
os pé e o rosto
E sor se deita 
no poente
Briando que nem
Uma brasa.

A muié lhe traiz 
um prato
Pruque fome 
num vai ficar pra dispois
E com ela ninguém 
faz trato
E o caboco enche a barriga
Com toicim e baião-de-dois.

O  café fervendo 
na chaleira
Na trempe do fogão 
perfuma a cozinha inteira
Se misturando 
com o perfume do pão.

A lamparina em cima da mesa
Com seu pavio comprido
Lá fora a natureza
Quilarea a chão batido
E fica lindo sertão 
no mei do mundo escundido.

Dispois da meia noite
Quando o galo
dá seu premero grito
Toda roça acorda tombem 
E a lua no infinito
Já se esconde pesarosa
Pro mode que o dia vem.

A enxada sulenciosa
É o enfeite da sala
Vai partir pro seu destino
Mas no raido um home fala
Que amenhã de menhã
Tem procissão do Divino.

O caboco não 
vai trabalhar
Pro mode que 
é dia do Santo
Vai todo mundo rezar
Pagar premessa e dispois
Louvar com reza e com canto.

E vorta pra casa animado
A fé lhe enche o peito
Dispois de ter rezado
Vorta sastifeito
Pruque na sua missão 
Foi o realizado o preceito.

E chega na sua paioça
Na sala arruma tipoia 
Toma um gole de raizada
Remédio feito na roça
Pra espaiar no estampo
Quando a janta é coisa pesada.

O sor nasce 
na mata cinzenta
Bem-te-vi acorda cantando
O caboco  ajunta as ferramenta
E caminha pro seu deretoro
Que é a sombra do juazero 
Donde monta seu escritoro.

É assim como 
veve o Sertanejo
Da roça pra sua tapera
Da sua tapera pra roça
O toicim e tripa tempera
E a farinha reforça.
A chama do candiero
Na força do gaiz alumia
E toda noite no terrero
O caboco veve sua alegria!