Ayalah Verônica Berg

Vingança

 

Na fresta do muro, ninguém — 
só o frio do vento na nuca. 
Não haverá volta, porém 
a lâmina já foi afiada. 
 
Cada um é fera no espelho, 
a mão que afaga já apunhala. 
Nada se ergue, nem o joelho, 
só a vontade que cala. 
 
A família — retrato na parede, 
um riso cinza atrás da porta. 
Não há memória, nem sede, 
só o sorriso que corta. 
 
O resto é breu, e mesmo no breu, 
há um riso de quem venceu sem luta. 
Não há retorno — é meu 
o nada que se enxuga. 
 
E se te beijo, é vingança 
do escuro contra o talvez. 
Olho o céu e sua festa, 
enquanto eu rio da minha vez. 
 
E se toca meu rosto, é tarde —  
a eternidade não esquece.  
Sou a fome que arde  
e o silêncio que te devora.
 
 
Vingança 
 de Ayalah Verônica Berg