Na fresta do muro, ninguém —
só o frio do vento na nuca.
Não haverá volta, porém
a lâmina já foi afiada.
Cada um é fera no espelho,
a mão que afaga já apunhala.
Nada se ergue, nem o joelho,
só a vontade que cala.
A família — retrato na parede,
um riso cinza atrás da porta.
Não há memória, nem sede,
só o sorriso que corta.
O resto é breu, e mesmo no breu,
há um riso de quem venceu sem luta.
Não há retorno — é meu
o nada que se enxuga.
E se te beijo, é vingança
do escuro contra o talvez.
Olho o céu e sua festa,
enquanto eu rio da minha vez.
E se toca meu rosto, é tarde —
a eternidade não esquece.
Sou a fome que arde
e o silêncio que te devora.
Vingança
de Ayalah Verônica Berg