Gi.

Chatice

Nossa, que chatice.

 

O mesmo gosto na boca,

a mesma fumaça depois da chama,

os mesmos nomes trocados

por palavras que já chegam gastas.

 

Tem coisa que encosta

e não alcança.

 

E talvez seja esse o meu problema:

eu sinto fundo demais

pra continuar chamando superfície de mar.

 

“Eu amaria o seu corpo.”

 

Bonito.

 

Mas quem pergunta

o que existe depois da pele?

 

Quem fica quando o espelho apaga?

 

Quem quer conhecer

o idioma estranho dos meus pensamentos,

as páginas que eu escondo,

as notícias que me fazem parar na rua

só pra pensar mais cinco minutos?

 

Eu não quero só alguém

que saiba onde tocar.

 

Quero alguém que saiba onde ficar.

 

Alguém que diga:

 

“Você viu aquilo?”

 

E, de repente,

o quarto deixa de ser quarto.

 

A conversa abre uma porta,

depois outra,

depois outra

 

e quando a gente percebe,

já estamos discutindo o mundo

como se tivéssemos inventado ele.

 

Não é sobre matar o desejo.

 

O desejo tem seu relógio.

 

Ele chega sem bater,

acende alguma coisa,

faz o sangue lembrar

de caminhos antigos.

 

Mas relógio é relógio.

 

Ele sabe exatamente

quando começar a contar.

 

E talvez eu esteja cansada

de confundir contagem regressiva

com eternidade.

 

Porque tem gente que me olha

como quem quer descobrir meu corpo.

 

Eu queria alguém

com coragem suficiente

pra tentar descobrir o resto.

 

O estranho.

 

O contraditório.

 

O que não cabe na cama.

 

O que não cabe em frase pronta.

 

O que não cabe

nem em mim.