LASANA LUKATA

Letras em TrĂ¢nsito

à noite, do alto do morro da caixa d’água,
de minha janela eu só via os carros na Dutra,
indo e voltando como o carro da máquina de escrever.
O que na Dutra eram carros, na máquina de escrever, letras.

Às vezes, na Dutra, o trânsito engarrafava letra a letra,
como se eu estivesse catando milho.

Carros ansiosos na Dutra,
como hastes, colidiam no caminho.

Os carros na Dutra, com faróis e lanternas acesas,
como letras no teclado, iluminavam-se.

Eu nunca me esqueci do sacrifício da fita esmagada pelas hastes
para dar vida aos poemas.

Das vezes que tentei ser o guarda para controlar o fluxo,
fui atropelado pela poesia.