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Estrangeiro dentro de casa

 Sinto-me velho antes do tempo, mal amado, gasto e sem alento; um homem perdido, sem direcção, com ferrugem antiga dentro do coração. O mundo parou quando aprendi a viver, e desde então não o consigo entender; as ruas mudaram, as vozes também, mas algo em mim ficou preso ao ontem. Passo noites sozinho, sem nada esperar, lambendo velhas feridas que não querem sarar; empoeiradas, profundas, escondidas na pele, como cartas esquecidas que ninguém mais lê. Atiro cigarros mortos contra a calçada, vendo a fumaça morrer na madrugada; cada brasa acesa, cada cinza no chão, parece um pequeno funeral do meu coração. Sou estrangeiro no meio da multidão, um rosto sem pátria, sem nome, sem mão; e quando finalmente volto para casa, sou estrangeiro até onde a minha sombra passa. Tenho vinte e poucos, mas carrego cem anos, coleccionando fracassos, silêncios e enganos; o tempo corre, mas eu fiquei para trás, num mundo que já não me reconhece mais. E talvez envelhecer seja simplesmente isto: perder aquilo que um dia julgámos ter visto; ficar acordado enquanto tudo vai embora, e conversar com a solidão até nascer a aurora.