Agatolouco

A Noite sem Reflexo


Encontrei um lago negro
no fim de um caminho que não lembro de escolher.

Era noite.

A lua permanecia escondida
atrás de nuvens cansadas,
e as estrelas, distantes,
pareciam pequenas demais
para iluminar aquele lugar.

Sua superfície era imóvel,
como se o tempo tivesse esquecido
de passar por ali.

Nem o vento ousava tocá-la.
As árvores ao redor
sussurravam umas com as outras,
mas o lago permanecia em silêncio.

Aproximei-me
e procurei meu reflexo.

Não havia rosto algum.

Havia olhos.

Muitos olhos,
espalhados pelo Abismo,
todos me observando
com uma familiaridade incômoda.

Permaneci em silêncio.

Talvez esperassem que eu fugisse.
Talvez esperassem apenas
que eu os reconhecesse.

Quanto mais olhava,
mais olhos surgiam.

E quanto mais tentava desviar,
mais fundo eu parecia enxergar.

A lua finalmente surgiu entre as nuvens,
mas sua luz não alcançou o fundo.

Foi então que compreendi:

talvez o abismo
nunca tenha nos encarado de volta.

Talvez sejamos nós
que, pela primeira vez,
paramos de fechar os olhos.

Continuei diante do lago
até não saber mais
se estava olhando para ele
ou para mim.

Ao longe,
a noite permanecia imensa,
e por um instante
senti que aquele lago
era apenas uma pequena janela
para algo muito maior.

Então me afastei.

O lago permaneceu imóvel.

As estrelas voltaram a desaparecer
atrás das nuvens,
e o caminho pareceu ainda mais escuro
do que quando cheguei.

Mas, naquela noite,
quando fechei os olhos,
ainda podia senti-los
me observando de dentro.